Se você acompanhou os últimos lançamentos de smartphones, provavelmente percebeu uma mudança. Durante muito tempo, a propaganda girava em torno de câmera, processador, tela e bateria. Agora existe uma expressão que aparece em praticamente todas as apresentações: inteligência artificial.
Tem IA para editar fotografia, pesquisar, traduzir, resumir textos, organizar informações e até ajudar a escrever mensagens.
A impressão é de que um celular lançado sem alguma função de IA já nasceu ultrapassado.
Só que existe uma diferença enorme entre uma tecnologia interessante em uma apresentação e algo que realmente melhora o uso do aparelho no dia a dia.
Eu acho que essa é a pergunta mais interessante para quem pretende trocar de smartphone nos próximos anos:
afinal, o que a IA no celular realmente faz por você?
A resposta é mais interessante do que simplesmente “ter um chatbot no telefone”.
Você provavelmente já usava IA antes de ela virar propaganda

Uma das coisas curiosas dessa história é que a inteligência artificial não chegou aos smartphones agora.
Ela já estava ali.
A câmera é um ótimo exemplo.
Você tira uma foto à noite e o celular consegue entregar uma imagem clara mesmo com pouca iluminação. Fotografa alguém contra uma janela e, ainda assim, o rosto não fica completamente escuro. Em algumas situações, o aparelho registra várias imagens em sequência e combina as informações para produzir uma fotografia melhor.
Tudo isso acontece praticamente sem intervenção do usuário.
É também um dos motivos pelos quais olhar apenas para a quantidade de megapixels deixou de ser uma boa maneira de comparar câmeras.
Dois celulares podem possuir sensores com a mesma resolução e produzir resultados bastante diferentes. O processamento realizado depois que você aperta o botão passou a ter enorme importância.
A IA apenas tornou esse processamento ainda mais sofisticado.
Apagar aquela pessoa que apareceu atrás da sua foto
Aqui temos um recurso que parece brincadeira até o dia em que você realmente precisa dele.
Imagine uma fotografia ótima durante uma viagem. Cenário bonito, enquadramento certo e, bem no fundo, alguém passou exatamente na hora do clique.
Antes, corrigir isso de maneira convincente poderia exigir um editor de imagens e algum conhecimento.
Hoje, alguns celulares permitem selecionar a pessoa ou objeto e simplesmente pedir sua remoção.
O aparelho analisa o restante da fotografia e tenta reconstruir o espaço que estava escondido.
Nem sempre fica perfeito. Fundos muito complexos ainda podem gerar resultados estranhos quando observados com atenção.
Mas quando funciona bem, é impressionante.
E, principalmente, resolve um problema real.
Essa é uma distinção importante que vamos usar várias vezes neste artigo.
Procurar alguma coisa sem saber o nome dela

Talvez você já tenha passado por isso.
Você vê um tênis interessante em uma fotografia, uma planta que não conhece ou algum aparelho em um vídeo e quer descobrir o que é.
Mas como pesquisar algo cujo nome você não sabe?
A pesquisa visual é uma das aplicações mais interessantes da IA nos smartphones.
Em vez de tentar descrever o objeto, o próprio conteúdo exibido na tela pode servir como ponto de partida para uma busca.
Parece uma mudança pequena, mas altera bastante a maneira de procurar informações.
É quase o caminho inverso da pesquisa tradicional.
Antes você precisava saber o que escrever para encontrar uma imagem.
Agora pode usar a imagem para descobrir o que escreveria.
Tradução começa a ficar realmente interessante
Aplicativos de tradução estão nos celulares há muitos anos.
A diferença agora é a integração.
Copiar uma frase, abrir outro aplicativo, colar o texto, escolher o idioma e copiar a resposta funciona. Mas não é exatamente uma experiência fluida.
A proposta dos sistemas mais recentes é diminuir essas etapas.
Textos exibidos na tela podem ser traduzidos mais rapidamente, assim como determinadas conversas e conteúdos.
Para alguém que utiliza o telefone apenas no Brasil e praticamente nunca encontra outro idioma, talvez isso tenha pouca importância.
Mas experimente viajar para outro país.
De repente, conseguir entender uma placa, cardápio, instrução ou mensagem utilizando apenas o telefone deixa de parecer uma função secundária.
É justamente por isso que avaliar IA apenas pela quantidade de recursos disponíveis não faz muito sentido.
Uma única ferramenta que resolva um problema frequente pode ser mais valiosa do que outras vinte que você nunca abrirá.
Resumir textos: bom, mas não confie cegamente
Essa é uma função que merece um pouco mais de cuidado.
Recebeu um documento enorme? Uma página muito longa? Uma sequência de informações que você precisa entender rapidamente?
Pedir um resumo pode economizar bastante tempo.
Eu usaria isso principalmente como uma primeira leitura.
O problema começa quando o resumo passa a substituir completamente a fonte original em assuntos importantes.
Modelos de inteligência artificial podem interpretar algo incorretamente, omitir um detalhe ou atribuir importância diferente daquela que você daria lendo o conteúdo completo.
Para descobrir rapidamente do que um texto trata? Excelente.
Para tomar uma decisão importante sem conferir a informação original? Melhor não.
Transcrição de áudio é uma função subestimada
Nem sempre os recursos mais úteis são aqueles que ficam mais bonitos em uma propaganda.
Transcrição é um ótimo exemplo.
Para estudantes, jornalistas, profissionais que participam de muitas reuniões ou qualquer pessoa que grave bastante áudio, transformar automaticamente uma gravação em texto pode economizar horas.
E a coisa fica ainda mais interessante quando o telefone consegue trabalhar com esse conteúdo depois.
Imagine uma reunião de 40 minutos.
Em vez de ouvir novamente toda a gravação procurando determinado trecho, você pode consultar o texto transcrito, localizar uma palavra específica ou obter os principais pontos discutidos.
Isso não é tão chamativo quanto fazer uma pessoa desaparecer de uma fotografia.
Mas para determinado usuário pode ser muito mais útil.
E os assistentes? Agora talvez eles finalmente façam sentido
Assistentes de voz nos prometeram bastante coisa.
Na prática, durante muito tempo acabamos usando comandos como:
“Coloque um alarme para as sete.”
“Como está o tempo?”
“Ligue para fulano.”
Eles funcionam bem quando sabemos exatamente o comando esperado. O problema aparece quando a solicitação foge desse padrão.
Os modelos mais recentes de IA estão tentando mudar essa relação.
Em vez de exigir frases específicas, a ideia é permitir uma conversa mais natural e, principalmente, compreender contexto.
Esse talvez seja o ponto no qual a inteligência artificial possa provocar a maior mudança nos smartphones.
Não necessariamente hoje, mas nos próximos anos.
Um bom assistente não deveria apenas responder perguntas. Ele deveria conseguir utilizar os recursos do aparelho para ajudar a realizar tarefas.
Quando isso funcionar de maneira confiável, teremos algo bem mais interessante do que simplesmente colocar um chatbot na tela inicial.
Parte da IA roda no próprio celular. Parte não.
Esse detalhe normalmente passa despercebido, mas é importante.
Nem toda função de inteligência artificial funciona da mesma maneira.
Algumas tarefas podem ser processadas diretamente pelo smartphone. Outras dependem de servidores na internet.
Isso ajuda a explicar por que fabricantes passaram a dar tanta atenção às capacidades de IA de seus processadores.
Executar determinadas tarefas localmente pode trazer vantagens de velocidade, funcionamento sem conexão e, dependendo da implementação, privacidade.
Por outro lado, modelos muito grandes e tarefas complexas ainda podem depender da nuvem.
Por isso, quando uma fabricante anuncia dezenas de funções de IA, vale observar algumas coisas:
A função exige internet? Existe limite de uso? Depende de assinatura? Funciona em português? Os dados são processados no aparelho ou enviados para servidores?
Essas respostas dizem muito mais sobre a utilidade do recurso do que simplesmente o selo “AI”.
O problema é quando IA vira apenas argumento de venda
Toda grande tendência tecnológica passa por esse momento.
Quando uma expressão começa a vender, ela aparece em tudo.
Já vimos isso com “4K”, “gamer”, “smart” e diversas outras palavras.
Agora chegou a vez da inteligência artificial.
Isso não significa que os recursos sejam falsos. Significa apenas que ter IA não transforma automaticamente um celular em um bom celular.
Imagine dois aparelhos.
O primeiro possui vários recursos de inteligência artificial, mas tem bateria ruim, pouca memória e suporte curto de atualizações.
O segundo oferece menos funções chamativas de IA, mas possui ótima tela, câmera consistente, bateria que dura o dia inteiro e vários anos de atualizações.
Eu ficaria com o segundo sem pensar muito.
A tecnologia deveria melhorar um produto que já é bom, não servir para esconder suas limitações.
Então vale trocar de celular por causa da IA?
Na maioria dos casos, não apenas por isso.
Se o seu smartphone continua rápido, a bateria ainda atende bem, as câmeras são suficientes e o aparelho recebe atualizações, dificilmente apagar objetos de fotografias ou resumir textos justificará sozinho gastar alguns milhares de reais.
Agora existe outra situação.
Você já decidiu trocar de celular e está comparando dois modelos semelhantes.
Nesse cenário, recursos de IA começam a ser interessantes como critério de desempate.
Principalmente porque estamos apenas no começo dessa transformação.
Um aparelho com processador moderno, boa quantidade de memória e vários anos de atualizações tem maiores chances de receber novos recursos durante sua vida útil.
O que eu observaria antes de comprar um “celular com IA”
Não começaria pela IA.
Minha ordem seria outra.
Primeiro verificaria se o aparelho possui desempenho suficiente para os próximos anos. Depois bateria, tela, câmeras, armazenamento e política de atualizações.
Só então entraria nos recursos inteligentes.
E faria algumas perguntas simples:
- As funções que me interessam estão disponíveis em português?
- Elas funcionam no Brasil?
- Precisam de conexão constante?
- Existe alguma cobrança prevista?
- Funcionam diretamente no aparelho?
- Vou realmente usar isso?
A última pergunta talvez seja a mais importante.
Porque é muito fácil ficar impressionado vendo uma demonstração de cinco minutos.
Outra coisa completamente diferente é utilizar aquela função depois de seis meses.
Recursos de IA que já fazem sentido
Se fosse separar aquilo que considero mais interessante hoje, minha lista seria relativamente curta:
Pesquisa visual: porque resolve o problema de procurar algo que você não sabe descrever.
Edição de fotografias: especialmente remoção de objetos e correções simples.
Tradução: quanto mais integrada ao sistema, melhor.
Transcrição: extremamente útil para quem trabalha ou estuda utilizando gravações.
Acessibilidade: reconhecimento de conteúdo, voz e imagem pode tornar o smartphone muito mais útil para diferentes usuários.
Organização e resumo: desde que você continue verificando informações importantes.
Perceba que nenhuma dessas funções precisa fazer algo “mágico”.
Elas simplesmente eliminam pequenas tarefas chatas.
E talvez seja exatamente aí que a IA seja mais interessante.
O futuro provavelmente terá menos botões escritos “IA”
Pode parecer contraditório, mas acredito que a inteligência artificial ficará mais importante justamente quando pararmos de falar tanto sobre ela.
Hoje as fabricantes precisam mostrar a novidade.
Por isso existem apresentações inteiras explicando cada recurso.
Com o tempo, isso tende a desaparecer.
Você não pensa em quantos algoritmos estão trabalhando quando tira uma fotografia com o celular. Apenas espera que a foto fique boa.
Provavelmente acontecerá a mesma coisa com IA.
O telefone entenderá melhor o que você procura, organizará determinadas informações, ajudará a melhorar fotografias e executará tarefas sem que você precise pensar qual tecnologia está por trás daquilo.
Nesse momento, “celular com IA” talvez se torne uma expressão tão desnecessária quanto dizer “celular com internet”.
Afinal, IA no celular é revolução ou marketing?

Um pouco dos dois.
Existe marketing, sem dúvida. A indústria encontrou uma nova maneira de diferenciar aparelhos e algumas funções recebem muito mais destaque do que sua utilidade prática justificaria.
Mas seria um erro concluir que tudo é apenas propaganda.
Pesquisa visual, processamento de imagem, tradução, transcrição e assistentes mais contextuais apontam para uma mudança importante na maneira como usamos smartphones.
O segredo é não comprar a sigla.
Compre a utilidade.
Se uma função economiza tempo, resolve um problema ou torna algo que você já fazia mais simples, ótimo. É exatamente para isso que tecnologia deveria servir.
Se você precisa assistir à apresentação da fabricante para descobrir por que deveria usar determinado recurso, talvez ele não seja tão indispensável assim.
Na próxima vez que encontrar “IA” em letras enormes no anúncio de um celular, portanto, vale trocar a pergunta.
Em vez de:
“Esse celular tem inteligência artificial?”
Pergunte:
“O que ele consegue fazer por mim que meu celular atual não consegue?”
A resposta provavelmente dirá muito mais sobre se chegou — ou não — a hora de trocar de aparelho.

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